O Papiro das Notificações Infinitas
Há invenções que melhoram a vida de um homem.
A roda, por exemplo.
O pão.
A cerveja.
E há invenções que, embora tenham sido criadas com boas intenções, deveriam ser queimadas em praça pública e esquecidas para sempre.
O papiro de comunicação pertence à segunda categoria.
Ganhei o meu há três meses.
Na verdade, não ganhei.
Comprei de um mercador que jurou que aquele pequeno pedaço de pergaminho era capaz de receber mensagens de qualquer pessoa, em qualquer lugar do reino.
Na época achei aquilo maravilhoso.
Hoje considero aquele mercador um criminoso.
O funcionamento é simples. Você escreve o nome de uma pessoa no papiro, toca com o dedo e, se a pessoa tiver outro papiro encantado, sua mensagem aparece no dela.
Também funciona ao contrário.
O que eu não sabia era que, depois que alguém descobre que você possui um papiro desses, essa pessoa passa a acreditar que você está disponível para receber mensagens a qualquer hora do dia.
Qualquer hora.
No primeiro dia, achei divertido.
Na segunda-feira, acordei com uma mensagem do taverneiro.
"Bom dia, Glockenspiel. Hoje temos hidromel em promoção."
Respondi:
"Não preciso."
Ele respondeu:
"Temos certeza?"
Não respondi.
Cinco minutos depois:
"Podemos separar uma jarra."
Ainda não respondi.
Mais cinco minutos:
"Última chance."
Levantei da cama e fui até a taverna.
A jarra estava realmente em promoção.
Comprei.
O problema não era o hidromel.
O problema era o precedente.
Na manhã seguinte, o padeiro descobriu meu número.
Depois o ferreiro.
Depois o dono da estalagem.
Depois um sujeito chamado Geraldo, que eu não conhecia e que aparentemente havia conseguido meu contato com alguém chamado Anselmo.
Não faço ideia de quem sejam Geraldo ou Anselmo.
Geraldo me escreveu às seis da manhã:
"Você ainda compra armadura usada?"
Respondi que não.
Ele respondeu:
"E nova?"
Bloqueei Geraldo.
Descobri então que o papiro possuía uma função chamada "silenciar".
Achei excelente.
Silenciei Geraldo.
Depois descobri que silenciar Geraldo não impedia que ele continuasse mandando mensagens.
Apenas fazia com que elas não produzissem som.
Ou seja, o problema continuava existindo, mas agora escondido.
Uma verdadeira obra-prima da magia.
Naquela mesma semana, fui convidado para um grupo.
O nome era:
"Aventureiros da Região Norte — OFICIAL".
Não faço ideia do que havia de oficial nele.
Havia cento e dezessete pessoas.
Duas eram magos.
Cinco eram anões.
Uma era um elfo que parecia estar sempre irritado.
Havia três comerciantes, quatro caçadores, um sacerdote e alguém chamado "Mestre do Machado", que enviava apenas imagens de machados.
Às sete da manhã, alguém escreveu:
"Bom dia, grupo."
Às sete e dois:
"Bom dia."
Às sete e três:
"Bom dia, irmãos."
Às sete e quatro:
"Alguém sabe onde comprar corda boa?"
Às sete e cinco:
"Tenho corda."
Às sete e seis:
"Quanto?"
Às sete e sete:
"Depende da quantidade."
Às sete e oito:
"Preciso de quinze metros."
Às sete e nove:
"Tenho vinte."
Às sete e dez:
"Quanto?"
Às sete e onze:
"Duas moedas."
Às sete e doze:
"Fechado."
Às sete e treze:
"Faço por uma e meia."
Às sete e quatorze:
"Você acabou de fechar por duas."
Às sete e quinze:
"Mas faço por uma e meia."
Às sete e dezesseis:
"Não quero mais."
Às sete e dezessete:
"Tudo bem."
Às sete e dezoito:
"Alguém sabe onde comprar corda boa?"
Eu saí do grupo.
Dois minutos depois, recebi uma mensagem particular:
"Por que saiu?"
Não respondi.
Outra:
"Aconteceu alguma coisa?"
Nada.
Outra:
"Você está bem?"
Ignorei.
Outra:
"Foi por causa da corda?"
Joguei o papiro em cima da parede.
Foi quando percebi uma coisa terrível.
Eu estava começando a esperar pelas mensagens.
Pegava o papiro sem motivo.
Olhava.
Nada.
Guardava.
Cinco minutos depois, olhava de novo.
Nada.
Guardava.
Mais cinco minutos.
Nada.
Comecei a imaginar que havia alguma mensagem importante esperando por mim.
Talvez uma proposta de trabalho.
Talvez uma notícia do reino.
Talvez alguém precisando de ajuda.
Talvez uma taverna oferecendo hidromel pela metade do preço.
Nada.
Então, finalmente, o papiro vibrou.
Meu coração acelerou.
Abri.
Era o taverneiro.
"Glockenspiel, você vai pagar aquela conta hoje?"
Joguei o papiro contra a parede.
Ele voltou.
Naturalmente.
Naquela noite, tomei uma decisão.
Eu iria abandonar aquela porcaria.
Enrolei o papiro, coloquei dentro de uma caixa e escondi no fundo da minha mochila.
Problema resolvido.
Fiquei quase uma hora sem olhar.
Foi uma das horas mais tranquilas da minha vida.
Depois comecei a pensar:
E se alguém estiver tentando falar comigo?
E se for importante?
E se alguém tiver descoberto uma pista sobre o bardo?
Abri a mochila.
Peguei o papiro.
Nada.
Fechei.
Cinco minutos depois, abri novamente.
Nada.
Mais dez minutos.
Nada.
Então apareceu uma mensagem.
Meu estômago gelou.
Era de um número desconhecido.
"Olá, Glockenspiel. Você foi selecionado para receber uma oportunidade exclusiva de investimento em runas mágicas."
Li até o fim.
A proposta prometia dobrar minhas moedas em três dias.
Eu sabia que era um golpe.
É claro que sabia.
Não sou um idiota.
Fiz algumas perguntas.
O sujeito respondeu.
Perguntei onde ficava a sede da companhia.
Ele respondeu.
Perguntei quem era o responsável.
Ele respondeu.
Perguntei quanto eu precisava investir.
Ele respondeu.
Fechei a conversa.
Pensei por alguns segundos.
Abri novamente.
"Quanto você disse que eu poderia ganhar?"
Foi nesse momento que percebi que o problema não era o papiro.
O problema era eu.
O papiro apenas havia encontrado uma maneira extremamente eficiente de me lembrar disso a cada cinco minutos.
Hoje mantenho o meu dentro da bolsa.
Com o som desligado.
As mensagens continuam chegando.
Não abro durante as refeições.
Não abro enquanto estou bebendo.
Não abro quando estou contando dinheiro.
E, principalmente, não abro quando estou apostando.
Na última vez que fiz isso, perdi uma aposta porque estava distraído respondendo ao padeiro.
Ele queria saber se eu ainda tinha interesse em comprar seis pães.
Eu disse que sim.
Acabei comprando doze.
Ainda não sei como.
Talvez seja magia.
Talvez seja comércio.
Talvez seja apenas o padeiro sendo muito bom no que faz.
De qualquer maneira, ontem recebi uma mensagem nova.
Era do meu pai.
Não falava com ele há quase quatro anos.
Fiquei olhando para o nome durante um bom tempo.
Não abri.
Coloquei o papiro de volta na bolsa.
Pedi uma caneca.
Depois outra.
E quando o taverneiro perguntou se eu não queria saber o que meu pai tinha escrito, respondi:
— Se fosse importante, ele teria mandado uma carta.
O taverneiro ficou me olhando.
— Mas você acabou de dizer que o papiro serve justamente para mandar mensagens.
— Eu sei.
— Então por que uma carta seria melhor?
Tomei um gole.
— Porque cartas não ficam vibrando no bolso.
E essa, nobres aventureiros, é a verdadeira vantagem de ser um homem das antigas.
Agora, se me dão licença, preciso verificar meu papiro.
Só para ter certeza de que ninguém me mandou nada importante.
Naturalmente.
Notas do Bardo
“Dizem que o rei proibiu pergaminhos com luz própria, alegando que retiram a produtividade dos camponeses. Mal sabe ele que estamos todos apenas esperando o próximo episódio das Crônicas de Dragão-Z.”